sexta-feira, 22 de julho de 2011

Uma pausa antes de virar passado

 
Enterrei fundo minha mão nos cabelos dele, enquanto tentava o máximo possível não olhar pro lado. Apenas queria sentir. Guarda o cheiro de sabonete que vinha do braço que ele usava pra brincar com uma das pulseiras do meu braço (aquela que ele havia me comprado em alguma das nossas viagens a praia e que estava bem gasta, mas que não me sentia capaz de tirar), o cheiro que vinha da blusa que ele gentilmente me emprestou pra dormir pela última vez naquela cama tão conhecida e o cheio daquele quarto em que tantas vezes estive e do qual nunca pensei que precisaria me despedir.

- Quando?
- Mais tarde
- Por quanto tempo?
- Não sei
- Você nunca sabe...

Não pude responder as reticências dele. Elas sempre diziam tudo que precisava. Eu realmente nunca sabia. Como podia imaginar que um dia precisaria dá idéia de cruzar o oceano pra entender que tudo que sempre quis estava ali ao lado? Porque, afinal, morar longe desse país imundo sempre foi meu sonho (ou seria o sonho dele que eu havia adotado pra mim?)

- Eu sinto sua falta
- Eu ainda não fui embora
- Mas, parece que partiu a um tempo de dentro de mim
- Está dizendo que me esqueceu?
- Estou dizendo que preciso
- E vai?

Silêncio.

Aquela não-resposta foi tudo que consegui enquanto espiava assustada os lábios dele formarem uma linha dura e o silêncio me explicou que não era provavelmente sair por voz: você não esquece uma vida toda, nem mesmo se essa vida vai embora.

- Quero que você venha comigo...
- Por quê?
- Porque eu preciso de novos ares, porque eu preciso te conquistar novamente...
- Você me perdeu quando aceitou ir
- Mas posso tentar te ter novamente
- E se eu disser que não quero?
- Eu digo que está mentindo
- Mas, não estou
- Eu sei...

Escutei a respiração suave dele enquanto tentava enterrar mais essa dor dentro daquele baú em que eu guardava todas pra só abrir durante o banho, onde minhas lágrimas salgadas e dolorosas se misturavam a água e não pareciam tão tristes assim.

- Você foi meu melhor amigo
- Você foi minha única amiga
- Porque precisa ser passado?
- Porque assim dói menos
- Não em mim...

Então ele cravou os olhos nos meus. E eu adorava o modo como as bochechas dele pareciam maiores quando ele inclinava a cabeça daquele jeito no travesseiro; e como os lábios dele pareciam ainda mais finos quando ele estava zangado e especialmente aquele pedido suplicante me dizendo pra não ir, pra adiar, pra ficar ali pra sempre, mesmo que esse pedido estivesse tão bem disfarçado no eu-não-me-importo-de-te-perder que pousava sobre os ombros dele, fazendo companhia aquele orgulho imenso. Procurei guardar tudo aquilo mesmo sabendo que doía pensar em nunca mais ter.

- Tem certeza que quer que seja assim? Que eu nunca mais ligue, nem te procure?
- Se as coisas fosse como eu quero, você não iria embora...
- E depois?
- Depois nada. As coisas continuariam como estão
- Então é o fim?
- Não, é o seu novo começo. E eu não estou incluído nele.

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Quando Deus.

''Amor é quando Deus mesmo sabendo que eu erro todo dia, sempre me dá uma chance de aprender e fazer diferente.''