sexta-feira, 22 de julho de 2011

Qualquer coisa que alimente (o coração)

Pra ouvir (enquanto lê ou não): I gave you all - Mumfurd & Sons

Eu deveria comer alguma coisa. Qualquer coisa, pensei. Meu estômago roncava baixinho enquanto eu abraçava minha cintura com um dos braços discretamente pra que ninguém pudesse ouvir o barulho. Engraçado isso, quase reflexo, porque não havia ninguém ali (nem modo de impedir com o braço que as pessoas ouvissem o barulho).

Nem lembrava a última vez que tinha comido alguma coisa. Só lembrava de ter bebido um montão de água o dia todo e alguns goles de café. Talvez uma maçã, mas já fazia tempo. Espiei de onde estava. Havia uma lanchonete ali pertinho, na esquina daqueles degraus em que me sentava. Degrau duro, dinheiro no bolso traseiro do jeans, estômago roncando. Aquele cansaço repentino era isso, eu só não queria comer coisa nenhuma.

Já sentiu fome e não quis comer nada?
Você sabe como é, eu sei que sabe.
Por mais que todo meu corpo pedisse, eu não ia comer.

Observei ao redor. Algumas pessoas passavam lá em baixo distraídas, ninguém ligava pra mim. Abaixei os olhos em direção a uma barriguinha que ficava ali aninhada entre minhas pernas encolhidas e apertada contra meu braço. Só dava pra ver ali de perto, ainda bem, mas ela ainda continuava ali a me torturar.

Um casal passou por mim, subindo as escadas. Tomei um pouco de ar e o máximo de classe que pude recolher, ali largada nas escadarias daquela praça velha no centro da cidade, enquanto puxava meu casaco pra mais perto do meu corpo e fingia esperar alguém. Torci pro meu estômago não fazer barulho enquanto eles passavam.

Eles sequer me notaram.

As mãos deles estavam cruzadas com delicadeza, quase saindo uma da outra, enquanto ela falava qualquer coisa e sorria, sorria, sorria. Acho que ela nem sabia o que estava falando, e ele também não ouvia, mas estavam ambos muito felizes só de estar ali, juntos e de mãos dadas passando por uma moça bem arrumada e jogada nas escadarias fingindo a classe que nunca teve. 

Sequer tinham me notado, eu sabia, mas tinha essa mania de me colocar nos olhos do outros que era pra ver se assim alguém me notava. Geralmente não funcionava. Aliás, nada do que eu tentava parecia funcionar. Porque eu fingia muito bem essa tal classe, e me arrumava bem, e me maquiava todos os dias, e ficava tonta como agora por passar o dia sem comer, e eu nem me achava tão feia assim (tirando a maldita barriguinha ali escondida pelo meu braço magro), e continua tão só.

Alguém sabe alguma noticia do meu príncipe encantado?
Acho que ele se perdeu no caminho...

E só então eu olhei pra frente e havia um gato me encarando. O animal estava do outro lado das avenidas movimentadas e me olhava como se quisesse arranhar minha alma, embora continuasse parado, sentado no chão frio igual o degrau em que eu estava, só observando. Nem sei quanto tempo fiquei ali, com os olhos nos olhos felinos dele e me perguntando por que não podia parar de olhar.

Até que eu senti um cheiro gostoso e uma sombra.

Um rapaz sentou ao meu lado nos degraus. Assim, sem dizer nada, nem pedir permissão. Quando olhei pro lado, ele me espiou por cima do hambúrguer que comia. Não tinha olhos malvados como os do gato e mesmo assim me assustou. Talvez mais que o bichano que ainda me encarava (eu não tirei a visão periférica dele).

Continuei com um olho no rapaz, outro no gato e um desejo gritando latente nos meus tímpanos. Não faça barulho, não faça barulho, não faça barulho. – Olá... - ele começou e eu apenas observei. Ele tragou outro pedaço do hambúrguer sem realmente importar-se com a minha não-resposta. Parecia confortável ali sentado ao meu lado.

Senti vontade de levantar, mas lembrei que a última vez que havia tentado, o mundo começou a girar e eu mal senti as minhas pernas, então continuei ali. – Quer um pedaço? - ele me ofereceu, colocando o hambúrguer mais perto do meu nariz e fazendo meu estômago revirar. Quero, quero sim, eu quero muito. - Não, obrigada. - disse por reflexo, como sempre dizia quando qualquer pessoa me oferecia algo pra comer.

Ele deu de ombro e continuo comendo. Tive vontade de voltar atrás e pedir só um pedacinho, mas eu sabia que mesmo que mastigasse, eu não ia querer engolir. Como ia explicar pra ele se eu não engolisse?

– Não acha que está frio demais pra ficar aqui, sentada nesses degraus? - disse casualmente, com uma voz rouca e confortável, enquanto acompanhava meu olhar que foi desviado para o gato que continuava sentado do outro lado das avenidas me observando. – Você também está aqui e não parece incomodado... - tentei usar minha melhor voz, ou o que restava das minhas forças pra isso. Ele riu gentil, não sei se pra mim, pro gato ou pra si mesmo.

– Então... - e foi só isso que ele disse. Mais nada. Eu também não sabia o que dizer. Desviei meus olhos pros dele e notei uma leve pupila dilatada ali, enquanto ele olhava pras minhas bochechas. E eu não sei por que, mas o achei muito bonito.

Ele era um desses rapazes grandes e magrelos, mas que tem saúde vista pelas bochechas meio rosadas. Não porque ele pertencesse a qualquer um desses padrões de beleza, nada disso. Ele era um cara bem normal, na verdade. Cabelo ondulado e olhos castanhos comuns. Mas, havia uma coisa naquele ar de quem está confortável onde quer que esteja e naquele sorriso confiante e ainda mais quando ele parecia se interessar por como eu estava.

Eu ainda estava assustada de estar sentada num degrau frio da cidade que mal conhecia, com um gato de olhos malvados me observando e um desconhecido que parecia se importar, mas me deixei ficar. Por curiosidade, por medo, por falta de forças pra ir, por não ter o que fazer, ou por não ter o que perder. Talvez por tudo isso.

E passado algum tempo - e quando eu já sentia minha cabeça parando de girar e tinha certeza absoluta de que ele já deveria ter ouvido meu estomago um montão de vezes, ele levantou-se, pediu licença e seguiu seu caminho.

Ainda observei-o por cima do meu ombro, caminhando até que dele não restava nada além do vulto e a lembrança de um perfume quase conhecido e um toque suave na minha perna... Espere. Mas, ele não havia me tocado...

Reparei então que o gato havia atravessado a rua e agora estava ali, aconchegando-se onde minhas pernas faziam curva e ronronando com certo prazer de finalmente tocar aquilo que se espia.

Aquele gato acabou se tornando meu amigo - o único amigo que me lembro daqueles tempos. E a lembrança do cheiro daquele hambúrguer ainda faz meu estômago revirar, mas pelo menos me lembra de que ainda existem pessoas dispostas a sentar-se ao lado de desconhecidos e fazer companhia.

Sou uma dessas pessoas agora.

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Quando Deus.

''Amor é quando Deus mesmo sabendo que eu erro todo dia, sempre me dá uma chance de aprender e fazer diferente.''